Cincinato o homem que recebeu o poder absoluto e decidiu devolvê-lo

Roma produziu alguns dos homens mais poderosos da Antiguidade. Generais que conquistaram territórios, líderes que comandaram exércitos e estadistas cujos nomes atravessaram os séculos.

Mas talvez uma das histórias mais impressionantes de Roma seja justamente a de um homem que teve o poder nas mãos e escolheu abandoná-lo.

Seu nome era Lúcio Quíncio Cincinato.

Mais do que um personagem da antiga República, Cincinato tornou-se, para gerações de romanos, um modelo de virtude romana, simplicidade, dever e desapego ao poder.

Ele representava um ideal que Roma admirava: o cidadão que não precisava de luxo para possuir dignidade, que não buscava o poder por vaidade e que colocava o dever para com a comunidade acima de seus próprios interesses.

Segundo a tradição romana, no século V a.C., Cincinato vivia afastado da vida pública, trabalhando em suas terras, quando Roma se viu diante de uma grave ameaça militar. Um exército romano estava cercado e a República enfrentava uma situação de emergência.

Diante da crise, Roma recorreu a uma de suas instituições extraordinárias: a ditadura.

É importante compreender que, naquele contexto histórico, a palavra não possuía exatamente o significado político que possui atualmente. Na República Romana, diante de determinadas situações excepcionais, um cidadão poderia receber poderes extraordinários por período limitado para enfrentar uma ameaça concreta.

E Cincinato foi escolhido.

A tradição conta que os enviados de Roma o encontraram trabalhando no campo.

A imagem é poderosa.

O homem que seria chamado a exercer a mais elevada autoridade extraordinária da República não estava cercado de luxo, guardas ou riquezas.

Estava em sua propriedade, trabalhando a terra.

Sua simplicidade tornou-se parte inseparável de sua memória.

De agricultor, tornou-se o homem mais poderoso da República.

Recebeu autoridade extraordinária.

Organizou o exército.

Marchou contra o inimigo.

Venceu.

E então aconteceu aquilo que faria seu nome atravessar os séculos.

Cincinato devolveu o poder.

Não tentou prolongar sua autoridade.

Não utilizou a vitória militar como justificativa para permanecer no comando.

Não transformou a emergência em argumento para governar indefinidamente.

Terminada sua missão, renunciou aos poderes extraordinários e retornou às suas terras.

E talvez esteja justamente aí uma das maiores lições políticas deixadas por Roma.

O verdadeiro teste do poder

É relativamente fácil defender limites ao poder quando não possuímos poder algum.

O verdadeiro teste acontece quando somos nós que podemos ultrapassá-los.

Cincinato poderia ter encontrado inúmeras justificativas para permanecer no comando.

Roma continuava enfrentando inimigos.

Existiam disputas internas.

Poderia afirmar que sua liderança ainda era necessária.

Poderia alegar que abandonar o cargo naquele momento colocaria a cidade novamente em perigo.

Poderia, enfim, encontrar uma razão aparentemente nobre para continuar governando.

Mas não o fez.

A República precisava ser maior do que o homem.

Essa ideia deveria acompanhar qualquer pessoa que exerça autoridade.

O poder público não pertence àquele que o exerce.

Ele é temporariamente confiado a alguém para determinada finalidade.

Quando o governante passa a enxergar o Estado como extensão de sua própria pessoa, começa uma das mais perigosas transformações da política.

A autoridade deixa de ser serviço.

Passa a ser posse.

“O poder pode revelar a força de um homem, mas é a renúncia aos excessos desse poder que revela seu caráter.”
Marcos Moreira

Um modelo de virtude romana e simplicidade

Cincinato tornou-se símbolo justamente porque sua vida parecia reunir algumas das qualidades que Roma desejava enxergar em seus melhores cidadãos.

Ele não foi lembrado apenas por vencer uma batalha.

Foi lembrado pela maneira como viveu antes, durante e depois de exercer o poder.

Sua simplicidade não representava fraqueza.

Representava independência.

Quem precisa de pouco para viver torna-se menos escravo do luxo, da vaidade e das recompensas do poder.

Essa ideia ocupava lugar importante no imaginário republicano romano.

O cidadão ideal deveria ser disciplinado, austero, responsável e disposto a servir quando necessário.

Mas deveria também saber retornar à vida comum quando sua missão terminasse.

Cincinato tornou-se, assim, um símbolo de uma antiga concepção de grandeza:

o homem verdadeiramente importante não é aquele que precisa mostrar seu poder, mas aquele que possui força suficiente para não depender dele.

Sua vida rural, seu afastamento do luxo e seu retorno à terra reforçavam a mensagem de que a dignidade de um homem não estava necessariamente na riqueza ou no cargo que ocupava.

Estava em seu caráter.

A virtude que sustentava a República

Os romanos possuíam palavras que expressavam aquilo que esperavam de seus cidadãos.

Virtus representava coragem, excelência e força moral.

Fides significava confiança, lealdade e respeito à palavra empenhada.

Pietas estava relacionada ao cumprimento dos deveres diante da família, dos deuses e da comunidade.

Gravitas representava seriedade, responsabilidade e dignidade.

Esses conceitos não eram simples adornos filosóficos.

Representavam um ideal de comportamento.

Cincinato tornou-se uma espécie de personificação dessas antigas virtudes.

Coragem para assumir o comando.

Disciplina para cumprir a missão.

Lealdade à República.

Simplicidade para retornar à vida comum.

E caráter suficiente para não transformar uma autoridade temporária em poder permanente.

Roma compreendia que nenhuma instituição sobreviveria apenas pela força das leis.

As leis precisavam ser sustentadas por homens capazes de respeitar limites mesmo quando possuíam condições de ultrapassá-los.

Esse talvez seja um dos grandes dilemas de qualquer República.

Uma Constituição pode estabelecer limites.

As instituições podem criar mecanismos de controle.

As leis podem prever responsabilidades.

Mas sempre existirá um momento em que a preservação da ordem dependerá também do caráter daqueles que exercem autoridade.

“A coragem é a virtude de um homem forte; mas saber impor limites a si mesmo é a virtude de um homem livre.”
Marcos Moreira

Poder como serviço

Existe uma diferença profunda entre desejar ocupar um cargo e compreender a responsabilidade de exercê-lo.

Para alguns, o poder representa prestígio.

Para outros, oportunidade.

Para outros ainda, domínio.

A história de Cincinato apresenta outra possibilidade:

o poder como dever.

O homem deixa sua vida privada porque a comunidade precisa dele.

Cumpre sua missão.

E retorna para casa.

Não existe necessidade de permanecer indispensável.

Não existe a ideia de que somente um homem pode salvar a República.

O verdadeiro espírito republicano exige justamente o contrário: instituições suficientemente fortes para sobreviver aos homens que temporariamente as comandam.

“Uma República forte não precisa de homens que se considerem indispensáveis, mas de homens que compreendam que as instituições devem sobreviver a eles.”
Marcos Moreira

Essa talvez seja uma das formas mais elevadas de compreender a política.

O exercício do poder não como propriedade, mas como responsabilidade.

Não como privilégio, mas como missão.

Quando os homens se tornam maiores que as instituições

Séculos depois de Cincinato, Roma enfrentaria exatamente o problema contrário.

Generais passaram a acumular enorme influência política.

Exércitos desenvolveram vínculos pessoais cada vez maiores com seus comandantes.

Disputas que anteriormente eram resolvidas dentro das instituições começaram, em diferentes momentos, a ser decididas pela força.

Mário.

Sula.

Pompeu.

Júlio César.

Cada personagem pertence a circunstâncias históricas diferentes, e seria simplificação atribuir a queda da República Romana a um único homem ou acontecimento.

Mas existe um fenômeno que merece atenção.

Quando as instituições enfraquecem, cresce a tentação de procurar homens extraordinários para solucionar problemas extraordinários.

E quando homens extraordinários acumulam poder demais, as próprias instituições podem passar a ser vistas como obstáculos aos seus projetos.

A República Romana terminou.

Em seu lugar surgiu o Império.

Roma continuaria poderosa durante séculos.

Mas aquela antiga ideia de uma comunidade política na qual nenhum homem deveria permanecer permanentemente acima das instituições havia sido profundamente transformada.

Liberdade e poder

A história de Roma também nos recorda algo fundamental: liberdade e poder precisam conviver com limites.

Uma sociedade livre não pode depender somente da boa vontade de seus governantes.

Precisa de leis.

Precisa de instituições.

Precisa de responsabilidade.

Mas também precisa de cidadãos conscientes de que o poder político nunca deve pertencer definitivamente a uma pessoa.

Governantes passam.

Instituições permanecem.

Gerações passam.

A sociedade continua.

É nesse sentido que uma convicção pessoal que carrego encontra eco nessa antiga história romana:

“Liberdade vem de Deus, e o poder vem do povo. Por isso, nenhum governante deveria esquecer que o poder recebido não lhe pertence.”
Marcos Moreira

Quando alguém recebe autoridade pública, recebe junto uma responsabilidade.

E toda responsabilidade possui limites.

O poder revela o homem

Existe uma antiga reflexão segundo a qual a verdadeira natureza de alguém aparece quando recebe poder.

Enquanto somos obrigados a obedecer limites, é difícil saber se realmente acreditamos neles.

Quando temos condições de ignorá-los, aparece a resposta.

Por isso a história de Cincinato atravessou tantos séculos.

Como acontece com diversas narrativas da Roma mais antiga, parte de sua história chegou até nós envolvida pela tradição e pelo ideal moral que os próprios romanos construíram em torno de determinados personagens.

Mas isso não diminui a força daquilo que Cincinato passou a representar.

Um homem deixa o arado.

Recebe autoridade extraordinária.

Salva Roma.

Devolve a autoridade.

E volta ao arado.

Poucas imagens representam tão bem aquilo que deveria ser o espírito republicano.

E poucas sintetizam tão claramente a antiga ideia romana de que virtude, simplicidade e dever poderiam valer mais do que riqueza, luxo e poder.

A maior vitória

Roma conquistou territórios gigantescos.

Derrotou inimigos formidáveis.

Construiu estradas, aquedutos, cidades e instituições que influenciaram profundamente o mundo ocidental.

Mas existe uma vitória ainda mais difícil.

Vencer a própria ambição.

Porque conquistar uma cidade exige força.

Conquistar um exército exige liderança.

Conquistar um país exige estratégia.

Mas possuir poder e, voluntariamente, aceitar seus limites exige caráter.

Cincinato poderia ter sido lembrado simplesmente como mais um comandante romano.

Foi lembrado por algo maior.

Soube partir.

E soube voltar à simplicidade de onde veio.

“Entusiasmo, força, coragem e fé podem levar um homem ao poder; o caráter é o que determina o que ele fará quando chegar lá.”
Marcos Moreira

Talvez essa seja uma das grandes lições que Roma continua oferecendo ao mundo.

O poder pertence às instituições, não aos homens.

Quem recebe autoridade deve lembrar que ela possui finalidade, responsabilidade e limite.

Cincinato nos recorda que a grandeza de um homem não está apenas naquilo que ele conquista, mas também nos limites que é capaz de impor a si próprio.

A coragem é a virtude de um homem forte.

Mas a simplicidade também pode ser uma forma de grandeza.

Cincinato tornou-se modelo de virtude romana porque provou, pelo menos na memória que Roma construiu sobre ele, que um homem podia possuir autoridade extraordinária sem transformar o poder em sua identidade.

Talvez uma das maiores demonstrações de força seja justamente esta:

possuir o poder e não se deixar possuir por ele.

Marcos Moreira


Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *