Vivemos em uma época de muito ruído e pouca profundidade.
Nunca tivemos tanto acesso à informação, tantas possibilidades de escolha e tantos meios de comunicação. Ainda assim, permanece dentro do homem uma inquietação antiga: qual é o sentido de tudo isso?
Podemos conquistar patrimônio, reconhecimento, influência e realizações. Tudo isso pode ter seu valor. O problema começa quando esperamos das coisas passageiras aquilo que elas jamais poderão oferecer: uma resposta definitiva para o sentido da existência.
Em algum momento, certas perguntas aparecem:
Quem sou? Por que existo? O que estou fazendo com a vida que recebi? E o que permanecerá quando tudo aquilo que hoje considero importante passar?
É nesse terreno que começa a espiritualidade.
E, para o cristão, essa busca conduz inevitavelmente a Deus.
O coração humano procura algo maior
Santo Agostinho resumiu essa inquietação de maneira extraordinária:
“Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.”
— Santo Agostinho, Confissões, I, 1, 1.
O Catecismo da Igreja Católica ensina, no §27, que o desejo de Deus está inscrito no coração humano, porque fomos criados por Deus e para Deus.
Talvez isso explique por que tantas conquistas humanas, embora legítimas, não conseguem preencher completamente nosso interior.
Alcançamos um objetivo.
Depois queremos outro.
Recebemos reconhecimento.
Depois buscamos mais.
O problema não está necessariamente na conquista.
Está em colocar sobre coisas temporais uma expectativa que elas não conseguem suportar.
Cristo advertiu:
“Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.”
— Mateus 6,21.
A pergunta permanece:
Onde está o nosso tesouro?
Porque nosso coração inevitavelmente segue aquilo que consideramos nosso maior bem.
Fé e razão caminham juntas
A espiritualidade cristã não exige o abandono da inteligência.
São João Paulo II escreveu na encíclica Fides et Ratio:
“A fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade.”
A fé verdadeira não teme a razão.
Questionar, estudar, investigar e procurar compreender podem fazer parte de uma vida espiritual madura.
São Tomás de Aquino dedicou sua obra justamente à harmonia entre razão e fé.
E São Paulo aconselha:
“Examinai tudo e ficai com o que é bom.”
— 1 Tessalonicenses 5,21.
O homem espiritual não precisa ser ingênuo.
Pode pensar.
Pode questionar.
Pode buscar respostas.
A fé não diminui a inteligência. Ela lhe oferece um horizonte maior.
O silêncio que desaprendemos
Talvez um dos maiores obstáculos modernos à espiritualidade seja o ruído constante.
Mensagens.
Notícias.
Vídeos.
Redes sociais.
Opiniões.
Compromissos.
Quando surge algum silêncio, frequentemente procuramos algo para preenchê-lo.
Mas a tradição cristã sempre compreendeu a importância de silenciar.
O Catecismo, ao falar da oração contemplativa, afirma:
“A contemplação é silêncio.”
— Catecismo da Igreja Católica, §2717.
Santa Teresa d’Ávila definia a oração como uma relação de amizade com Aquele que sabemos que nos ama.
E também ensinava:
“O essencial não é pensar muito, mas amar muito.”
A espiritualidade precisa desses momentos.
Silêncio para ouvir.
Silêncio para refletir.
Silêncio para perceber aquilo que o barulho estava escondendo.
Liberdade e responsabilidade
Nosso tempo fala muito sobre liberdade.
Mas liberdade não significa simplesmente poder fazer qualquer coisa.
O Catecismo ensina:
“Quanto mais o homem fizer o bem, mais livre se torna.”
— Catecismo da Igreja Católica, §1733.
E completa:
“Não há verdadeira liberdade senão no serviço do bem e da justiça.”
Essa é uma ideia profundamente atual.
Um homem pode possuir inúmeras escolhas e, ainda assim, tornar-se escravo do dinheiro, do ego, do prazer, da aprovação social, do poder ou dos próprios vícios.
São Paulo escreveu:
“Foi para a liberdade que Cristo nos libertou.”
— Gálatas 5,1.
A verdadeira liberdade exige domínio sobre si mesmo.
E justamente porque somos livres, somos também responsáveis pelas escolhas que fazemos.
Que homem estou me tornando?
Existe uma pergunta talvez mais importante do que “o que estou conquistando?”:
Que tipo de homem estou me tornando enquanto conquisto?
O Catecismo define virtude como:
“Uma disposição habitual e firme para praticar o bem.”
— Catecismo da Igreja Católica, §1803.
A palavra “habitual” é importante.
Caráter não é construído apenas em grandes acontecimentos.
Ele nasce das pequenas decisões de todos os dias.
Falamos a verdade ou nos acostumamos à mentira.
Cumprimos a palavra ou encontramos justificativas.
Controlamos nossos impulsos ou permitimos que eles nos controlem.
A tradição cristã destaca quatro virtudes cardeais:
prudência, justiça, fortaleza e temperança.
Prudência para decidir.
Justiça para agir corretamente.
Fortaleza para permanecer firme.
Temperança para dominar excessos.
Mas todas elas encontram seu sentido maior na caridade.
Porque a espiritualidade que aproxima o homem de Deus também deve torná-lo mais capaz de amar o próximo.
A fé diante do sofrimento
Toda espiritualidade parece simples quando a vida acontece conforme nossos planos.
A prova verdadeira aparece quando perdemos.
Quando adoecemos.
Quando somos decepcionados.
Quando rezamos e não compreendemos a resposta.
A Bíblia não esconde o sofrimento humano.
Jó questiona.
Davi lamenta.
Os profetas sofrem.
E Cristo, na Cruz, pronuncia:
“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”
— Marcos 15,34.
O cristianismo não promete uma vida sem sofrimento.
Ele apresenta algo diferente:
o sofrimento não precisa possuir a palavra final.
A própria Cruz, que parecia derrota absoluta, transforma-se no caminho da Ressurreição.
São Paulo reconhece o limite de nossa compreensão:
“Agora vemos como num espelho, de maneira confusa.”
— 1 Coríntios 13,12.
Nem sempre compreenderemos imediatamente aquilo que estamos vivendo.
A fé não oferece explicações artificiais.
Ela oferece um fundamento para permanecer de pé mesmo quando ainda não compreendemos.
Encontrar-se é também entregar-se
A cultura moderna fala muito sobre encontrar a si mesmo.
Mas o cristianismo apresenta um paradoxo.
O Concílio Vaticano II afirma que o homem:
“Não pode encontrar-se plenamente senão por um dom sincero de si mesmo.”
— Gaudium et Spes, 24.
Ou seja:
para encontrar a própria vida, é necessário aprender a oferecê-la.
À família.
Aos filhos.
Ao cônjuge.
À vocação.
À comunidade.
A quem precisa de nós.
A Deus.
Cristo deixa isso ainda mais concreto:
“Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes.”
— Mateus 25,40.
Uma espiritualidade verdadeira nunca termina apenas dentro de nós.
Ela necessariamente encontra o outro.
A fé precisa produzir frutos
São Tiago escreveu:
“A fé, se não tiver obras, está completamente morta.”
— Tiago 2,17.
E Cristo afirmou:
“Pelos seus frutos os conhecereis.”
— Mateus 7,16.
Talvez seja essa uma das melhores formas de avaliar nossa própria caminhada.
Minha fé está me tornando mais justo?
Mais paciente?
Mais responsável?
Mais humilde?
Mais misericordioso?
Estou aprendendo a perdoar?
A controlar meus impulsos?
A servir?
A espiritualidade não pode ser medida apenas por emoções ou palavras.
Ela também precisa aparecer nos frutos.
Aquilo que permanece
No fim, talvez a espiritualidade seja justamente a busca por aquilo que permanece quando tudo aquilo que é temporário começa a desaparecer.
O dinheiro passa.
Os cargos passam.
A juventude passa.
A aparência passa.
Os aplausos passam.
Até nossa passagem por este mundo termina.
São Paulo escreveu:
“Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor. Mas a maior delas é o amor.”
— 1 Coríntios 13,13.
Depois de tantas disputas humanas por poder, reconhecimento e importância, talvez aquilo que verdadeiramente permaneça seja muito mais simples.
A fé que carregamos.
O caráter que construímos.
As pessoas que amamos.
O bem que fizemos.
Os exemplos que deixamos.
E a esperança que transmitimos.
Uma pergunta para a vida
Existe uma pergunta que deveríamos fazer algumas vezes ao longo da caminhada:
Se amanhã desaparecessem meu dinheiro, meus títulos, meus cargos, minha imagem pública e tudo aquilo que possuo, quem sobraria?
A resposta revela sobre qual fundamento construímos nossa identidade.
Cristo falou do homem que edificou sua casa sobre a rocha.
Vieram chuva, rios e ventos.
A casa permaneceu.
Não porque não enfrentou tempestades.
Mas porque possuía fundamento.
“Ela não caiu, porque estava edificada sobre a rocha.”
— Mateus 7,25.
Talvez seja exatamente isso que a espiritualidade procura construir dentro do homem:
um fundamento que permaneça quando chegarem as tempestades.
Espiritualidade cristã não é fugir do mundo.
É aprender a viver nele sem perder aquilo que é eterno.
É silenciar.
Pensar.
Rezar.
Discernir.
Escolher.
Servir.
Perdoar.
Cair e levantar.
E continuar caminhando.
Santo Agostinho descobriu que o coração permanece inquieto enquanto não repousa em Deus.
São Tomás ensinou a harmonia entre fé e razão.
Santa Teresa encontrou na oração uma amizade com Deus.
São João Paulo II lembrou que a fé e a razão conduzem o homem à verdade.
E Cristo resumiu tudo:
“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.”
— João 14,6.
Talvez espiritualidade seja justamente isso:
permitir que Deus nos mostre quem realmente somos e para que fomos criados.
Porque, no fim, quase tudo passa.
Deus permanece.
Marcos Moreira
Referências
Bíblia Sagrada: Mateus 6,21; Mateus 7,16; Mateus 7,24-25; Mateus 25,40; Marcos 15,34; João 14,6; Gálatas 5,1; 1 Coríntios 13,12-13; 1 Tessalonicenses 5,21; Tiago 2,17.
Catecismo da Igreja Católica: §§ 27, 1731-1733, 1803, 2717.
Santo Agostinho: Confissões, Livro I, 1,1.
São João Paulo II: Encíclica Fides et Ratio.
Concílio Vaticano II: Constituição Pastoral Gaudium et Spes, n. 24.
Santa Teresa de Jesus: Livro da Vida e Castelo Interior ou Moradas.
São Tomás de Aquino: Suma Teológica.
Fontes oficiais da Santa Sé:
Catecismo da Igreja Católica:
https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/prima-pagina-cic_po.html
São João Paulo II — Fides et Ratio:
https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_14091998_fides-et-ratio.html
Concílio Vaticano II — Gaudium et Spes:
https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html
Bento XVI — Catequese sobre Santo Agostinho:
https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20080130.html
Bento XVI — Catequese sobre São Tomás de Aquino:
https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2010/documents/hf_ben-xvi_aud_20100616.html
Papa Francisco — mensagem sobre Santa Teresa de Jesus:
https://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/pont-messages/2014/documents/papa-francesco_20141015_messaggio-500-teresa-avila.html

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